Púrpura secreta

Quarta-feira, Junho 30, 2004

"Este poema tem um dia adormecido entre os braços" (Francisco Luis Bernárdez)



Robert Doisneau
Square du Vert-Galant
1950

Terça-feira, Junho 29, 2004

realizar sonhos, abarcar mundos


Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?



Pergunta she, sabendo ela que os horizontes são sempre mais vastos que quaisquer mundos que se abraçem e que quando uma montanha se alcança, logo outra mais alta se acende no olhar.
Somos uns eternos insatisfeitos, orfãos de sonhos é que não.

Aren't I right, girl?
;)

a lição do homem da pizza

Ainda bem que estás desse lado para me ouvires os desabafos. Sem te sentir aí presente não sei como seria. Passe a ironia. Não achaste que estava a ser irónica?... ups!!.Bom....na verdade...esquece. Na verdade, adoro-te e sem ti não poderia conceber os meus dias.
O meu assunto do dia: fui hoje à 1ª consulta de nutrição. Tudo bem. Posso "comer do que gosto" mas não de "tudo". Não passo muitos períodos sem comer, etc e tal.
Índice de massa corporal, medidas, peso, altura - se perder 5 kilos estarei bem, mas se perder 10 ficarei com o peso "ideal"....(esta palavra faz-me rir...)
Paguei a minha consulta como é de lei e de moral e ála para o escritório. Horas do almoço eram e eu pensei, vou começar amanhã a dieta, que hoje não tenho nada a jeito, enfim, disse a verdade para mim mesma, o que não admira já que sou rapariga honesta e às direitas.
Não sei exactamente a sequência dos acontecimentos. Sei que dali a 30 minutos estava no escritório a ver os mails e a comer "várias" fatias de pizza, daquelas que levam tudo. Recordo-me de ter ido à pizzaria e de ter pedido metade de uma pizza pequena para levar e quando fui buscar a metadinha que eu pensava caberia disfarçada na minha mala de mão, vejo um pacote ENORME, plano, baixo e quadrado, com cerca de 30X30. Agi com naturalidade, posso dizê-lo e ainda pedi um ice tea, tendo a clareza de espírito para dizer que " é de limão, por favor, o ice-tea".
Lição do dia: explicar sempre bem aquilo que se quer ao homem da pizza para não ficar com um pedaço de ironia atravessado toda a tarde.



uma vez esta rosa vermelha

*

(...)
O caso é que, Deus meu, vou estando farta
de tanto ressurgir, morrer, tornar à vida.
Levem-me tudo, e deixem-me sentir
ainda uma vez esta rosa vermelha.



Ana Akhmátova

Segunda-feira, Junho 28, 2004

noite

*

Animal ferido


Noite,
bosque excessivo:
acolhe
este animal ferido
de perguntas,
ajuda-me
a ser álamo contigo.



Eugénio de Andrade

Domingo, Junho 27, 2004

se


Se eu pudesse
escrever só
para ti
(que é
um modo de dizer:
como a brisa passa
porque é brisa
como as águas
correm porque
são água
como a planta respira
e a fera mata)
se eu pudesse
escrever
sem endereços
sem sobrescritos
sem o medo
de ser lido
de ter escrito
seria a verdade
dos rios
seria a praia nocturna
a sós com o mar
seria o hálito
da boca desnuda
seria montanha
seria rio
seria mar
seria asa.
Seria
eu.



Fernando Namora


Sábado, Junho 26, 2004

tudo menos política

.
Em Tudo menos política descobri este teste

ligações

Agradeço a Amok - a memória perdida, a Victum Sustinere e ao Fórum comunitário o terem-me incluído nos seus links.
Muito obrigado.

Amo o caminho que estendes

*

Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.


Daniel Faria

e agora?

A moda de convocar manifestações por sms's continua - método barato, eficaz e de efeito multiplicador...Pois é.
Não sei o que pensar da saída de Durão para Bruxelas e da eventual ida de Santana para PM - apesar de a considerar legítima não me convence.

Sexta-feira, Junho 25, 2004



São quase 3h da manhã e não tarda que o despertador me chame ao dever - os óculos escuros vão ser um aliado precioso para hoje...

emoções fortes

Cada um se encarregou de trazer uma coisa, hoje foi dia de trabalho e além disso repartir as tarefas é justo. Assim pensei eu quando me ofereci para ir à churrascaria onde também pensaram ir a fila de pessoas que chegava à porta. Meia hora de espera depois e lá saía eu, a 15 minutos do começo do jogo. Em dias destes é sempre assim, menina.
(...)
Euforia colectiva na cidade. Saí à rua, juntei-me àqueles que sem pena, gastaram gasolina, gasóleo ou gás e de bandeiras hasteadas comemoraram uma vitória justa e merecida. Atingida com uma pitada de sorte e muita fé, sem fé vai-se a alma das coisas.
É ligeiro, breve o limite entre o sim e o não, o ganhar e o perder, o amar e o desamar. Num momento tudo pode mudar, num quase imperceptível momento o destino faz-se imprevisível, excitante e prazenteiro ou amargo e triste - o bom ou o menos mau disto tudo é que a vida é um carroussel enorme e nós vamos lá dentro, embalados e equilibrados pelas vitórias e alguns fracassos, o jogo é uma metáfora da vida.

Quinta-feira, Junho 24, 2004

reflexos

De um livro sobre Feng Shui, retiro este ditado chinês:

Se te olhares ao espelho, podes mudar de roupa e de chapéu. Mas se uma pessoa for o teu espelho, podes descobrir as tuas qualidades positivas e negativas.


Será por isso que apontamos por vezes e de forma tão violenta certos erros aos outros? Não estaremos nós no limbo, na indecisão do que somos e do que desejaríamos ser, vindo aquela pessoa, que é tão parecida connosco que até podia ser nossa mãe (e às vezes é-o, de facto) lembrar-nos o que nós queremos esquecer?


Ufa...

Terça-feira, Junho 22, 2004

Daniel Faria


(Ansel Adams)

Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas - podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia - e essa é a verdade - cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.



Daniel Faria (1971/1999)



(...)

Abraço precisa de ajuda

Recebido hoje por mail:

A associação "Abraço" recebeu 30 meninos com HIV.

Estão a necessitar de roupa para rapariga (qualquer idade) e para rapaz
precisam dos 6 aos 14 anos para este projecto (trinta crianças a cargo).

Se quiserem colaborar contactem por favor para: Maria José Magalhães -
Telef.: 213 974 298 (Associação "Abraço").




Um abraço :)


Segunda-feira, Junho 21, 2004

debate sobre a blogosfera

Descobri aqui

Parabéns Portugal

Que belo jogo, que merecida vitória! Concordando com uma amiga, digo igualmente que mesmo que não ganhemos mais nada, salvámos a dignidade!

Domingo, Junho 20, 2004



Lembram-me muitos bloggers que Chico Buarque fez anos ontem. É dos músicos brasileiros o que mais aprecio, mais do que Caetano Veloso, cujos álbuns 'O livro' e 'Omaggio a Frederico e Giuletta' são do melhor que lhe conheço.
Enquanto Caetano é mais doce na expressão, sinto Chico Buarque mais visceral, intenso, embora doce também...com aquele magnífico verde no olhar.
'A ópera do malandro' é uma referência incontornável, um dos discos da minha vida.

Deixo o link para me/vos deliciar (se tiver mais de um leitor, já posso falar no plural ;)


Sábado, Junho 19, 2004

Ginger and Fred

"Um estranho é apenas um amigo que não se conhece",

diz a Margie Simpson, na sua querida boa fé...:)


Quinta-feira, Junho 17, 2004

Passeio pela blogosfera. Leio posts e mais posts, identifico-me com uns, nem tanto assim com outros, sem dúvida discordo de uns tantos.
Esta febre de conhecer os blogs é típica de uma recém-chegada que sem compromisso de tempo e de regularidade aqui decidiu dar um pézinho de dança. Rodopiemos então por cada blog que nos cative.
Siga a dança!





Em Praga há um belíssimo edifício, nomeado de 'Ginger and Fred' que tem a forma possível, sensualmente possível, de dois corpos entrelaçados num abraço de dança.

Boa noite!

Quarta-feira, Junho 16, 2004

garbo

Regressamos sempre aos velhos lugares onde amámos a vida. E só então compreendemos que não voltarão jamais todas as coisas que nos foram queridas. O amor é simples, e o tempo devora as coisas simples.



José Eduardo Agualusa, O ano em que Zumbi tomou o rio

Terça-feira, Junho 15, 2004

António Ramos Rosa

*

A palavra é curva Nunca atinge
o alvo. Só o silêncio
é recto.
Mas a chama de um e de outro
limpa a lepra do tempo
e descobre a fonte branca
como o desenho latente que na página respira


António Ramos Rosa


Segunda-feira, Junho 14, 2004

Beijo

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
E dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.


Jorge de Sena


e...
Helmut Newton


parado e atento à raiva do silêncio
de um relógio partido e gasto pelo tempo
estava um velho sentado no banco de um jardim
a recordar fragmentos do passado

na telefonia tocava uma velha canção
e o jovem cantor falava de solidão
que sabes tu de canto de estar só assim
só e abandonado como um velho do jardim

olhar triste e cansado procurando alguém
e a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
sabes que eu acho que todos fogem de ti pra não ver
a imagem da solidão que irão viver
quando forem como tu
um velho sentado num jardim

passam os dias e sentes que és um perdedor
já não consegues saber o que tem ou não valor
o teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
para dares lugar a outro no teu banco do jardim

olhar triste e cansado procurando alguém
e a gente passa ao seu lado a olhar-te com desdém
sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver
a imagem de solidão que irão viver
quando forem como tu
um resto de tudo o que existiu
quando forem como tu
um velho sentado num jardim



Mafalda Veiga

Domingo, Junho 13, 2004



- Onde devo pôr o perfume? - perguntou uma jovenzinha.
- Onde desejes ser beijada - respondi eu.


Coco Chanel

experiências...

Afinal o blog ainda continua vivo depois da última hora em que quase soçobrou. Andava (ando) numa fase experimental, a tentar perceber e aplicar as funcionalidades do blogger e eis senão quando: PUF! A página principal aparece sem nada escrito, deitando supostamente a perder o que lá coloquei desde segunda-feira.
Tão misteriosamente como desapareceu, apareceu de novo o blog, intacto e igual.
É melhor ficar quietinha e sossegada, para ver se não apanho outra surpresa desagradável...

Sábado, Junho 12, 2004

*

Não se repete a dor não se repete a alegria
inteiras renascidas de cada vez
por isso viver é a maravilha
de viver milhões de vidas
de haver sempre outra porta para abrir
e o desejo de abri-la.


Fernando Namora

O impacto dos blogs - artigo na 'Visão'

Acompanhando o alastrar da Internet e dos telemóveis, o mundo dos fazedores de política cresceu. Seja na forma como se mobilizam manifestantes seja na discussão. Os blogs portugueses viveram o seu apogeu quando a guerra do Iraque monopolizava, e encarniçava, os debates. E conseguiram liderá-los.
A Coluna Infame nasceu para combater a "hegemonia cultural da esquerda". Era um ponto de encontro para "conservadores, liberais e independentes". Os seus responsáveis já escreviam em jornais (Pedro Mexia e Pedro Lomba vinham das páginas do DN Jovem, e o primeiro escrevia críticas literárias no DNA, enquanto João Pereira Coutinho assinava uma crónica mensal em O Independente)
Hoje, depois de muitos posts e do encerramento intempestivo da Coluna Infame, os três escrevem regularmente sobre política e ganharam novas tribunas. Os dois Pedros escrevem no primeiro caderno do Diário de Notícias e João Pereira Coutinho transferiu-se para o Expresso.
Esta disputa esquerda-direita, feita por novos protagonistas, tanto em idade como em notoriedade, levou o decano dos nomes sonantes da blogosfera portuguesa a denunciar uma mudança: Não havia antes hegemonia da 'direita' e agora há da 'esquerda'.(...) Mais do que a política, mudou o estilo e a dimensão, e uma sensação que a blogosfera é mais hostil do que cosy", escreveu o eurodeputado no seu blog: Abrupto.
Esta é a face mais visível da capacidade de intervenção política dos blogs. Uma tomada de posição pode ter uma réplica imediata. Por isso, as polémicas entre os blogs depressa alastraram ao mundo dos jornais impressos. As suas opiniões passaram a ser escutadas e publicadas. E os seus autores tornaram-se concorrentes dos comentadores habituais. "Nós fazemos o combate pela agenda mediática, é essa a função de um blog", afirma Daniel Oliveira, do Barnabé.
Um exemplo: Nuno Ramos de Almeida conheceu as biografias dos três japoneses sequestrados no Iraque, e a notícia da sua iminente libertação, através da rede mundial da ATTAC, muito antes de qualquer notícia dos jornais.



Excerto de 'Militância sem fios', artigo da revista Visão de 15 de Abril de 2004, da autoria de Paulo Pena.
Mas haverá amor, digno desse nome, que não seja de perdição?


Luis Francisco Rebello

a oriente tudo de novo

Não me canso de gostar do Parque das Nações, da arquitectura da gare do oriente, das linhas ondulantes da Ponte Vasco da Gama.
O Parque da Bela Vista, onde se realizou o Super Bock Super Rock deste ano e que fica mesmo ali à beira (adoro esta expressão do Porto), até agora desconhecido para mim e para a maior parte das pessoas que lá foram nestes 3 dias de festival, foi uma boa surpresa, pelas potencialidades que tem para receber este tipo de eventos. Por seu lado, os espaços verdes envolventes, acolhedores, imensos, ora planos ora torneados convidam a longos passeios românticos (não só mas também ;)e parecem ter sido desenhados por um poeta. E que é um arquitecto senão um potencial poeta da paisagem?

Sexta-feira, Junho 11, 2004

poema a duas vozes

*

Gelo

Este gelo
que me aperta os traços

esta linha vertical
que me atravessa o corpo

o sorriso que me foi cortado

essas palavras ásperas
movidas a gelo
que me selam os lábios


doce veneno palavras alheias


bocados de mim e de ti
arrastados para longe
pelo vento agreste

soterrados algures
no gelo de uma montanha


E no degelo que acontecerá?
Saltarão sáveis, salmões e focas?
Ou estará apenas um leão marinho
pachorrentamente a olhar o correr do Tempo?

Quinta-feira, Junho 10, 2004

memória

*

Só morrem, desaparecem de vez, as pessoas que não foram amadas.

Zélia Gattai, Città di Roma.

Quarta-feira, Junho 09, 2004

David M.F.

*

Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas

Só necessito que tu existas


David Mourão-Ferreira

Terça-feira, Junho 08, 2004

pela boca morre o peixe

Pela boca morre o peixe e eu fui uma vítima feliz das minhas decididas intenções de não criar um blog: os motivos para tal decisão tão firmemente tomada como rapidamente abandonada (que me perdoem os mais estáveis de intenções) é que há muitos e bons blogs, que gostaria de ler com tempo e atenção; Para quê mais um que (apesar de "meu") me roubaria tempo e disponibilidade mental?
Depois de (pouco) sopesar os prós e os contras e ignorando ambos de imediato fui atrás do instinto e da vontade, venci as minhas reticências e arranjei a justificação que me faltava, rendendo-me ao inevitável: o amor pelas palavras e pela expressão escrita, o gosto pela comunicação e pela partilha.
Apetece-me agora calcorrear calmamente e com leveza um caminho antevisto com curiosidade...caminho cujos primeiros passos foram acompanhados generosamente pela Ly que, ontem à noite, do seu computador ajudou o bébé a nascer - Quase a ferros, como eu de minha mãe.

Amizades virtuais

Que imaterialidade é esta que sustenta e dá corpo a conversas, interesses comuns e descobertas, adivinha cumplicidades e sorrisos que se sentem vivos e palpitantes do outro lado do écran?

Divagações minhas no 2º dia de vida do meu blog, parte de mim, palavras minhas, conversas a sós comigo e com quem mais me encontrar nesta rede, também de afectos feita.

Bem-vindos.

Segunda-feira, Junho 07, 2004

Púrpura secreta

*

É na terra um fogo breve.

Um fogo doce de palha,
húmido,
quase animal.

Uma concha suave-
mente trabalhada
pelas abelhas da sombra.

Insegura flor abrindo.
Quase boca, quase língua,
agressiva, transviada.

Aglutinada
púrpura secreta
clamando
por luz violenta.

Um punhal extenuado
de ferir
lábio a lábio.

Explosão lenta.



Eugénio de Andrade